O VALOR DA ÁGUA

Por Pedro Póvoa, Diretor de Gestão de Ativos na Águas do Tejo Atlântico

 

Imaginem-se 160 milhões litros de água. Qualquer coisa como três garrafões de 5 litros por cada pessoa residente em Portugal. Enviados para o rio Tejo diariamente. É este o volume de água produzido só pela Fábrica de Água de Alcântara. E a Tejo Atlântico tem mais de cem instalações.

Se pensarmos que em Singapura, Califórnia, Israel, Flórida e na Austrália, toda a água produzida nas Fábricas de Água destas regiões são já hoje 100% reutilizadas na agricultura ou na recarga indireta de aquíferos, estamos a falar de um recurso muito valioso.

A água produzida nas Fábricas de Água não é uma água potável, nem se pretende que o seja. O objetivo é que o seu valor seja utilizado de forma sustentável, e integrado numa gestão inteligente do ciclo urbano da água, por exemplo, na lavagem de ruas, climatização, indústria, rega de espaços verdes e agricultura, e porque não no combate aos incêndios?

Neste âmbito, porque não inovar e preparar as próximas gerações com soluções que respondam às alterações climáticas e em cenários de catástrofe? Num cenário de impossibilidade de abastecer a zona metropolitana de Lisboa a partir de Castelo de Bode, que soluções teremos como alternativas? Porque não equacionar a reutilização de água, em fins não potáveis, a partir das Fábricas de Água existentes?

Mas o seu potencial não fica por aqui. Muito longe disso. Portugal é um país que apresenta níveis de défice de matéria orgânica nos solos. Acresce a este problema a crescente ocorrência de fogos e consequente erosão do solo, bem como os efeitos das alterações climáticas. O que tem esse problema que ver com fábricas de água? Não obstante a constante volatilidade do valor comercial dos adubos de azoto e fósforo ser uma realidade, é cada vez mais frequente a implementação de projetos de recuperação de azoto e fósforo nas fábricas de água, conferindo assim uma outra dimensão na fábrica de água, ou seja, de valorização de subprodutos, numa Europa deficitária na importação de nutrientes.

A relação entre a água e a energia entra também nesta equação. As Fábricas de Água são atualmente consumidores intensivos de energia, mas têm uma matéria-prima que apenas valoriza 9% do potencial energético. A inovação neste campo consistirá em transformar estes consumidores intensivos de energia em fábricas neutras do ponto de vista da energia. Esta inovação prende-se com o aumento da produção de biogás a partir da matéria orgânica presente, sistemas de tratamento e tecnologias mais eficientes, processos de codigestão de resíduos, climatização dos edifícios a partir da temperatura da água e a produção de energia hídrica e solar.

O potencial é imenso, a capacidade temo-la entre nós. Vamos tornar as Fábricas de Água uma realidade!

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